ACERVO HISTÓRICO - Heráclito Fontoura Sobral Pinto

Explore documentos, fotografias e cartas que moldaram a história do direito brasileiro.

Acervo Documental

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Carta Nov, 1937

Carta a Francisco Campos

Escrita quatro dias antes da promulgação da Constituição de 1937 e amplamente divulgada à época, a carta dirige-se a Francisco Campos, então Ministro da Justiça e arquiteto jurídico do Estado Novo. Sobral Pinto condena sem meias palavras o uso que Campos fazia de sua reconhecida inteligência e erudição a serviço de Vargas, a quem chama de "grande corruptor de almas" e a quem o próprio Campos já havia julgado com dureza. O argumento central - de que o poder é efêmero e a força, caduca - é ilustrado com a trajetória do próprio Campos, que Sobral lembra ter caído do auge à sarjeta e ainda assim voltado a se alinhar ao governo.

Carta Dez, 1968

Carta ao Presidente Costa e Silva

Em 21 de dezembro de 1968, Sobral Pinto protestou duramente ao Presidente Costa contra a promulgação do AI-5, ocorrida oito dias antes. Sobral denuncia que o AI-5 destrói o caráter cívico do país ao suprimir as garantias do Poder Judiciário e tornar impossível qualquer resistência individual sem risco de prisão arbitrária. Relata que ele próprio foi uma vítima do Ato Institucional, tendo sido violentamente preso em Goiânia e detido ilegalmente por três dias em Brasília. Durante a detenção, recusou-se a prestar qualquer declaração, lendo ao oficial responsável uma carta de 1965 em que já afirmava não dever satisfações a ninguém. Encerra reservando-se o direito de divulgar publicamente o documento e anuncia que voltará a criticar o AI-5 em novas oportunidades.

Carta Jan, 1937

Carta de Sobral Pinto à sua irmã Natalina

Escrita em 11 de janeiro de 1937, a carta responde à preocupação de Natalina, irmã de Sobral Pinto, com a decisão do irmão de aceitar a defesa de Luís Carlos Prestes. Sobral rejeita qualquer censura ao seu gesto, afirmando que foi justamente ali - ao aceitar o patrocínio de um comunista declarado - que mais nitidamente se revelou cristão. Afirma discordar da ideias de Prestes, mas vê nele uma grandeza rara - a fidelidade às próprias convicções, mesmo a um custo enorme -, em contraste Góes Monteiro e Getúlio Vargas, a quem ele classifica como oportunistas. Encerra com a frase que sintetiza toda a sua ética profissional: quem não tem coragem cívica e energia moral não deve ingressar nos quadros da advocacia.

Notícias Abr, 1977

Entrevista ao jornal O Pasquim

Publicada na edição nº 409 do Pasquim, de 29 de abril a 5 de maio de 1977, a entrevista com Sobral Pinto foi realizada por uma bancada típica do jornal — Zinaldo, Argemiro Ferreira, Felix de Athayde, Ricky e Iza Franzesi, assistente do próprio advogado. Sobral tinha 83 anos e a mesma irreverência de sempre. Fala da sua fé inabalável, das defesas históricas de Prestes e Harry Berger, com um prazer visivelmente intacto. Conta como em dezembro de 1968 foi preso depois de discursar em Goiânia, detalhando a cena quase em tom de comédia, e como escreveu uma carta a Castelo Branco avisando que ele era inelegível para presidente. Na última página, o perfil assinado por Argemiro Ferreira contextualiza a trajetória inteira: décadas escrevendo cartas a presidentes, ministros e autoridades, nunca sem assinar o nome, nunca recuando.

Notícias Set, 1980

Bomba no escritório

Em 10 de março de 1980, uma bomba-relógio artesanal foi deixada na sala de espera do escritório de Sobral Pinto, na Rua Debret, por alguém que o acusava de "defender comunistas". A bomba foi desativada pela polícia e estava programada para explodir às 18h, na hora em que Sobral costumava sair. Durante todo o episódio, ele se recusou a deixar o escritório. À noite, resumiu a situação em uma frase: "Não mudo a minha rota. Continuo fazendo o que sempre fiz na minha profissão, porque do contrário seria inútil."

Notícias Ago, 1984

O Último Juri

Em agosto de 1984, aos 91 anos, Sobral voltou ao Tribunal do Júri após 15 anos de afastamento para defender Pedro Luiz de Jorge Lima, acusado de tentativa de homicídio. Falou por uma hora em pé, sem consultar os autos, sem errar um nome ou uma data. O próprio promotor Eduardo Portela abriu sua acusação homenageando o adversário: "Sobral é a sentinela indormida da legalidade deste País". O réu foi absolvido por 4 votos a 3.

Petição Mar, 1937

Petição - Harry Berger - Lei de Proteção aos Animais

Protocolada em 2 de março de 1937 perante o Tribunal de Segurança Nacional, a célebre petição denuncia as condições em que Harry Berger — comunista alemão preso desde 1935 — estava detido: um socavão sob uma escada, sem luz, sem ar renovado, sem cama, sem roupa limpa e em isolamento absoluto. Diante da impossibilidade de invocar garantias processuais durante o Estado Novo, Sobral recorreu ao Decreto nº 24.645/1934 — a Lei de Proteção aos Animais — para argumentar que um ser humano não poderia receber tratamento pior do que o que a lei proibia para os animais. Usou ainda as próprias palavras de Getúlio Vargas, que afirmara publicamente que nenhum preso político era tratado com desumanidade. A petição surtiu efeito: Berger foi transferido para uma cela condigna, com cama, roupa e acesso a materiais de leitura e escrita.

Petição Mar, 1937

Petição em favor de Luís Carlos Prestes

Nove dias após a petição apresentada em favor de Harry Berger, Sobral voltou ao juiz Raul Machado com uma demanda diferente. Chegara ao seu escritório, vinda de Paris, uma correspondência de Leocádia Prestes e uma carta de Olga Benário, remetida de uma prisão feminina em Berlim, anunciando o nascimento de Anita Leocádia, filha de Prestes em 27 de novembro de 1936. Por imperativo ético, Sobral não podia entregar as cartas ao cliente sem autorização judicial. Diante disso, ele aproveitou o ensejo para reiterar pedido já formulado diversas vezes: que fosse autorizado o restabelecimento da correspondência regular entre Prestes e sua família, cortada desde março de 1936. A autorização foi concedida, o que permitiu que Sobral e Leocádia coordenassem a obtenção da declaração de paternidade de Prestes, peça indispensável para obter o resgate de Anita. Em janeiro de 1938, aos catorze meses, Anita Leocádia foi entregue pela Gestapo à avó, sendo levada posteriormente para o México e, finalmente, ao Brasil, com o fim da ditadura do Estado Novo.

Linha do Tempo de Sobral Pinto

1893
Nascimento de Heráclito Fontoura Sobral Pinto em Barbacena, Minas Gerais.
1917
Obtém o título de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (atual Faculdade Nacional de Direito, da UFRJ).
1924
Nomeado Procurador Criminal da República Interino, passando a Efetivo em 1928.
1928
Nomeado Procurador-Geral do Distrito Federal. No mesmo ano, pede demissão do cargo.
1937
Atuação heroica na defesa de Luis Carlos Prestes e Harry Berger perante o Tribunal de Segurança Nacional. Nessa ocasião, Sobral Pinto apresentou a célebre petição por meio da qual invocou a Lei de Proteção aos Animais para garantir melhores condições no cárcere a Harry Berger, que sofria com torturas brutais e condições desumanas de encarceramento. A atuação de Sobral Pinto também foi fundamental para que Anita Leocádia, filha de Luís Carlos Prestes, fosse libertada de uma prisão nazista, onde nascera, e entregue à sua família no Brasil.
1941
Participa da fundação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
1955
Funda a Liga de Defesa da Legalidade, para defender a realização de eleições livres e a posse de Juscelino Kubitschek como Presidente da República, ameaçada por movimentos golpistas.
1956
Indicado por Juscelino Kubitschek ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, recusa o cargo com o argumento de que defendera a posse do Presidente por convicção democrática e constitucional e não por interesse em obter qualquer favorecimento pessoal ou cargo público.
1963
Eleito presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB).
1964
Embora tenha defendido a intervenção dos militares para restaurante a ordem constitucional e democrática por sua posição anticomunista, poucos dias depois passa a se insurgir contra a Ditadura Militar, pois compreendeu que o novo regime rapidamente abandonara a legalidade, as liberdades públicas e as garantias fundamentais que afirmava proteger.
1965
Atuação no Caso dos Nove Chineses, no qual nove representantes comerciais e jornalistas chineses foram presos, torturados e condenados injustamente sob falsa acusação de subversão comunista.
1968
Após discursar contra a promulgação do Ato Institucional nº 5, é preso em Goiânia. Permaneceu preso por três dias, até que, após grande mobilização de amigos, admiradores e advogados, o Presidente Costa e Silva ordenasse a sua soltura.
1970
É agraciado com a Medalha Rui Barbosa, honraria concedida pela OAB para advogados que houvessem prestado serviços relevantes à Justiça, ao Direito e à classe. Sobral Pinto foi o primeiro a receber esta medalha.
1972
É agraciado com o “Prêmio Teixeira de Freitas” do IAB Nacional, a maior comenda jurídica do Brasil, pelos relevantes serviços prestados ao direito, eleito pelo Conselho Superior.
1980
Sofre uma tentativa de atentado com a colocação de uma bomba em seu escritório. Os terroristas afirmavam agir em represália à “defesa de comunistas” por parte de Sobral Pinto.
1984
Discurso no comício das Diretas Já, em frente à Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro
1984
Aos 90 anos, atua pela última vez perante o Tribunal de Júri e obtém a absolvição de seu cliente, acusado de tentativa de homicídio.
1991
Na VII Conferência dos Advogados do Estado do Rio Janeiro, denominada Congresso Sobral Pinto, recebe o diploma de Conselheiro Federal Honorário da OAB. Sobral Pinto foi o primeiro advogado a receber a honraria.
1991
Aos 98 anos, morre em sua casa, no Rio de Janeiro, no dia 30 de novembro.